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https://www.abc.org.br/wp-content/uploads/2025/03/ABC_Evolucao_redux.pdf
Livro produzido pela ABC a partir dos trabalhos de um grupo multidisciplinar de especialistas tem como objetivo compilar tudo que há de mais atual em diferentes áreas da ciência e que nos permite contar uma história sólida e inequívoca sobre a ocorrência da evolução biológica da vida na Terra. Esse trabalho reflete o compromisso da ABC em promover e disseminar o conhecimento científico de qualidade para a sociedade. A teoria da Evolução é um dos pilares mais robustos e fascinantes da ciência moderna.
Uma viagem desde os primórdios da vida na Terra
O livro começa antes mesmo da vida surgir e, por isso, conta com geólogos entre seus autores. Entre eles o professor Umberto Cordani, que nos traz para o período Hadeano, entre 4,5 e 4 bilhões de anos atrás, quando a Terra ainda era uma bola de fogo inabitável. Só após um grande resfriamento, que levou a formação dos primeiros oceanos, é que a vida se tornou possível. Isso se deu no período seguinte, que chamamos de Arqueano, quando começaram a surgir as primeiras evidências de carbono orgânico e as primeiras bactérias.
A origem da vida e o “mundo do RNA”
Mas como exatamente a vida surgiu? Para começar a responder essa pergunta, precisamos olhar para as três moléculas fundamentais da vida: o DNA, o RNA e as proteínas. As três são cadeias de carbono compostas por pequenos “blocos” que se repetem. No caso do DNA e do RNA, são os nucleotídeos, e no caso das proteínas, os aminoácidos. Na maioria dos seres vivos atuais, a informação hereditária – aquela capaz de ser transmitida na reprodução – é armazenada no DNA, mas essa molécula sozinha não é capaz de formar um organismo. Para isso, a informação contida no DNA é transcrita em RNA e depois traduzida em proteínas, essas sim, capazes de realizar as funções do nosso corpo.
Isso só é possível graças ao que chamamos de código genético, cuja descoberta foi um marco na história da biologia. Resumidamente, cada sequência de três nucleotídeos sempre corresponderá a um mesmo aminoácido, permitindo que seja possível olhar para uma molécula de DNA ou RNA e saber exatamente qual proteína ela irá produzir. Esse código é compartilhado por todos os seres vivos e é a prova de que todos somos descendentes de um único ancestral comum.
Portanto, numa ponta temos o DNA, que é capaz de se replicar, mas não de formar um organismo, e do outro as proteínas, que formam os organismos e catalisam processos metabólicos, mas não se replicam sozinhas. E no meio temos o RNA, o qual também é capaz de se replicar e catalizar funções metabólicas – como os ribossomos, as “máquinas” responsáveis por traduzir um RNA em uma proteína, eles próprios feitos de RNA.
Por conta disso, acredita-se que a origem da vida reside no RNA. Segundo essa teoria, o RNA poderia ser a primeira molécula “viva” porque ele pode carregar informação e fazer catálise. Então, foi proposta a ideia do ‘Mundo de RNA’, um mundo onde as células teriam o material genético de RNA. Nós não temos esse mundo hoje, só alguns vírus têm material genético de RNA, mas nossas células carregam resquícios desse mundo.
A fotossíntese, os eucariotos e a absorção de bactérias
Uma vez estabelecida essa primeira forma de vida, ela logo se encapsularia e começaria a desenvolver as primeiras atividades metabólicas, surgindo as primeiras células sem núcleo – procariontes – não muito diferentes das bactérias que conhecemos hoje. Durante cerca de dois bilhões de anos esses organismos habitaram os oceanos primordiais e evoluíram.
Nesse período, um dos desenvolvimentos mais notáveis foi o surgimento da fotossíntese, pela qual algumas bactérias, chamadas cianobactérias, passaram a utilizar a luz solar para produzir energia, liberando oxigênio no processo. Conforme esse novo gás se acumulava na atmosfera, muitas bactérias não adaptadas acabaram extintas, mas algumas tinham o necessário para usar o oxigênio para gerar energia, nas primeiras formas de respiração aeróbica.
Então, por volta de 1,9 bilhões de anos atrás, surgiu um novo tipo de células, maiores e divididas em “compartimentos”, entre os quais um núcleo para o DNA. Eram as primeiras células eucarióticas. Uma das primeiras inovações dos eucariotos foi a absorção de bactérias fotossintetizantes e aeróbicas, as ancestrais dos plasmídeos e das mitocôndrias, respectivamente. Essas duas organelas celulares se tornaram responsáveis por realizar essas mesmas funções dentro dos seus novos hospedeiros. Ao longo desse processo, uma parte do genoma dessas bactérias migrou para o núcleo, no que chamamos de transferência horizontal. Células eucariontes são resultado da fusão de diferentes organismos. Nós somos parte bactérias!
Outra inovação foi a pluricelularidade, cujas primeiras evidências aparecem a cerca de 1,4 bilhões de anos atrás. Pela primeira vez, um único organismo passou a ser formado por mais de uma célula trabalhando em conjunto. A partir daí, o cenário estava preparado para uma verdadeira revolução da vida na Terra.
A Explosão do Cambriano, o registro fóssil e o alerta das extinções em massa
Uma das vantagens da geologia é o seu poder para desvendar o tempo profundo. Algumas evidências de formas de vida primitiva são marcantes há bilhões de anos, como os estromatólitos, formações características das cianobactérias. Esses e outros tipos de microfósseis dominaram o registro geológico até cerca de 500 milhões de anos atrás, quando, no período imediatamente anterior ao que chamamos de Cambriano, uma profusão de fósseis pluricelulares começou a aparecer.
Muitos desses organismos são diferentes de tudo o que conhecemos hoje em dia, mostrando que houve uma fase de intensa “experimentação evolutiva” antes de que os grandes grupos de animais e plantas se estabelecessem. Mas, mesmo após esse período, a vida na Terra nunca seguiu uma trajetória linear. Outra coisa que o registro fóssil nos mostra são os grandes eventos de extinção em massa, cinco ao todo, entre eles o que deu fim aos dinossauros, que radicalmente alteraram a biodiversidade e abriram espaço para novos grupos se diversificarem.
Chegamos ao Ser Humano
Apenas a cinco milhões de anos atrás, um piscar de olhos na evolução da vida na Terra, um grupo de primatas divergiu de seu ancestral comum com os chimpanzés, passou a andar em dois pés e, após deixar um vasto número de espécies-primas para trás, se tornou o Homo sapiens, o ser humano moderno.
Apesar de ser apenas um sopro na história da vida, a evolução humana é o ponto mais sensível do debate. Mesmo Charles Darwin não teve coragem de abordá-la em seu clássico A Origem das Espécies, vindo a fazê-lo apenas em seu livro posterior, A Descendência do Homem, pelo qual foi hostilizado. O próprio Alfred Russel Wallace, que divide com Darwin o mérito de ter primeiro descrito a seleção natural, morreu sem aceitar as inferências óbvias que a teoria trazia para a nossa própria espécie.
Mas a conclusão é inescapável. Seja nos traços que compartilhamos com os outros primatas, seja no fato de compartilharmos 98,5% de DNA com os chimpanzés, as evidências científicas não deixam dúvidas. O ser humano é um animal como outro qualquer, produto de um processo de evolução por seleção natural que vem ocorrendo há 4 bilhões de anos.