23/01/2026

Os líderes indígenas André Baniwa, Auricélia Arapium, Braulina Baniwa e Ivo Macuxi participaram da Reunião Magna da ABC 2025, trazendo à tona os desafios enfrentados hoje pelos povos originários da Amazônia, especialmente o apagamento socioeconômico e cultural imposto por interesses financeiros, a intensificação da violência e a fragilização das políticas públicas de proteção.

Ao dedicar sua Reunião Magna de 2025 à Amazônia, a ABC reafirmou o papel da ciência no debate público e a necessidade de integrar, de forma respeitosa e horizontal, os saberes indígenas às reflexões sobre o presente e o futuro da região. Entre os diversos temas abordados ao longo do evento, um eixo foi recorrente em diferentes sessões: a cultura, os conhecimentos e as dificuldades vividas pelos povos originários que habitam a Amazônia há milênios.

As lideranças indígenas foram recebidas, de modo especial, pelo antropólogo Ruben Oliven, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vice-presidente da ABC para a região Sul. Oliven destacou que a antropologia, enquanto campo do saber, é atravessada por um profundo respeito às culturas e aos modos de conhecimento diversos.

Segundo ele, o convite às lideranças indígenas envolve uma questão moral fundamental: “o modo como um país trata suas minorias é um reflexo do seu progresso”. Para Oliven, “é preciso que a minoria possa se expressar livremente e se desenvolver a seu modo. E hoje os indígenas estão participando ativamente do debate – são professores, advogados, têm mestrado e doutorado, se expressam por conta própria”.

Ele reforçou ainda o sentido institucional da iniciativa: “Nessa reunião queremos deixar claro que a ABC tem o maior interesse em ouvi-los, não como uma curiosidade, mas como produtores de um saber próprio, tão respeitável quanto o saber científico. A ciência é uma das formas de explicar a realidade, mas existem outras.” Oliven destacou como gesto simbólico e político o fato de os palestrantes indígenas iniciarem suas falas em suas próprias línguas: “É uma manifestação de amizade e de afirmação cultural. A Academia os recebe com humildade e sede de aprender.”

Tentando unir esforços e pensar juntos em soluções

Também antropólogo, André Baniwa agradeceu o convite para estar “num lugar de pensadores, buscando analisar a história e o tempo que vivemos e construir visão de futuro. Na cultura indígena também existe isso”. Empreendedor social, ambientalista, ativista indígena dos direitos humanos, professor, escritor e político, ele articulou sua fala em torno da noção recorrente do “fim do mundo”, intensificada hoje pelas mudanças climáticas e pela recusa de grande parte da humanidade em alterar hábitos e valores em favor da natureza e da própria sobrevivência.

André contou que nasceu ouvindo que o mundo acabaria no ano 2000. Não acabou. O que se sucedeu, contudo, foi a condenação de tecnologias indígenas como demoníacas, o extermínio de povos, a extinção de línguas e uma sucessão de impactos devastadores sobre a vida indígena. “Foram muitos os impactos sobre a vida das populaçóes indígenas, que têm aguentado a violência, o racismo. Nós, que estamos hoje aqui, somos restos desses povos, ressaltou.

Ele lançou então perguntas centrais ao público: como as discussões sobre mudanças climáticas, aumento da temperatura e incertezas em relação ao futuro afetam os jovens indígenas? O fim do mundo está se aproximando? Ainda há esperança? “Como será a vida dos nossos filhos, dos nossos netos? Por isso acho que estamos aqui, para tentar unir esforços e pensar juntos em soluções”, declarou.

Ao relatar uma conversa com um tio pajé, André compartilhou uma visão profundamente simbólica: ao perguntar se o mundo iria acabar, ouviu como resposta: “Que mundo? O sol e a lua estão aí, como sempre. As estrelas estão no céu. O que mudou? O comportamento das pessoas, que fazem coisas erradas e estão provocando essas consequências climáticas que estão aí. As pessoas, portanto, é que vão acabar, e não o mundo.”

Povos da Amazônia têm o direito de viver segundo seus valores

A líder indígena Auricélia Arapium, coordenadora do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), atua na defesa do acesso a políticas de educação e saúde, na proteção dos territórios, dos modos de vida, da floresta e dos rios, enfrentando especialmente o avanço do garimpo ilegal. Em sua fala, confessou que as apresentações assistidas na Reunião Magna a deixaram apreensiva. “Como fazer um enfrentamento contra tantos tipos de violações a que os povos da região estão submetidos, de modo a preservar nossas culturas, nossas tradições?”, questionou.

Nascida e criada no estado do Pará, Auricélia lembrou que existem mais de 180 povos indígenas na Amazônia, sendo os mais ameaçados aqueles em isolamento voluntário. Uma de suas principais bandeiras é a luta contra o Projeto de Lei 191/2020, que libera a mineração em terras indígenas. Ela relatou que, na semana anterior ao evento, povos indígenas ocuparam a Secretaria de Meio Ambiente do Pará após o governo renovar o contrato de uma mineradora dentro de território indígena.

A líder indígena Auricélia Arapium

Segundo Auricélia, a mineração não se restringe ao sul do estado: “ela já mapeou todo o Pará”. Na região oeste, em Oriximiná, a empresa MRN avança sobre territórios quilombolas e ameaça povos indígenas em recente contato, como os Zo’é. Há ainda pressões associadas a planos de manejo florestal. “Tivemos duas terras indígenas no Baixo Tapajós com portaria declaratória recentemente, e isso gerou um grande conflito devido ao interesse da mineração nessas terras.”

Ela ressaltou que megaprojetos de infraestrutura ampliam os problemas sociais: as estradas que cortam a floresta também facilitam o acesso ao álcool, às drogas e ao crime organizado. “A Amazônia inteira está comprometida, incluindo os territórios indígenas, com redes criminosas como o PCC e o Comando Vermelho. Essas redes buscam recrutar lideranças entre os jovens indígenas. Quando não conseguem recrutar, eles matam.”

Violência, Estado e fragilidade da proteção institucional

Para Ivo Macuxi, advogado indígena e presidente da comissão de defesa indígena da OAB-RR, o aspecto mais preocupante é a captura das estruturas do próprio Estado pelo crime organizado. “O Pará tem sido um exemplo clássico: governos locais alteram a própria legislação para atender aos interesses de grupos.”

Auricélia complementou relatando que facções utilizam aldeias como esconderijos e depósitos de drogas, agravando de forma dramática o alcoolismo nas comunidades próximas às estradas. “Não é cachaça: os parentes consomem álcool puro, misturam com água e bebem. Quando não têm, tomam gasolina. Se envenenam. E mesmo com muitas denúncias, isso é invisibilizado.”

Ivo Macuxi alertou para iniciativas legislativas que fragilizam ainda mais os direitos territoriais, como a Lei 14.701, que institui o marco temporal. “É uma medida que enfraquece a proteção dos territórios indígenas e de suas lideranças”, afirmou.

O advogado Ivo Macuxi

Ele citou o Acadêmico Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo (USP): “Os povos indígenas não apenas habitam a floresta: eles a construíram. São cientistas da floresta. Guardiões de tecnologias ancestrais. Conhecem o solo, os ciclos das chuvas, as propriedades das plantas.”

Segundo relatório da ONU de abril de 2024, divulgado em 2025, embora representem apenas 6% da população mundial, os povos indígenas protegem 80% da biodiversidade remanescente. “Continuamos contribuindo com nossas tecnologias, nossas ciências, nossos conhecimentos — não só para nós, mas para toda a humanidade”, declarou Ivo.

Para Ivo, convidar lideranças indígenas a se expressarem é mais do que escuta: é reconhecimento e responsabilidade coletiva entre a ciência indígena e a ciência não indígena. “Não há futuro para a Amazônia sem seus povos e não há futuro para a ciência que ignora a diversidade de saberes. Este é um chamado à ação.”

As guardiãs da floresta

Especialista em gênero e povos indígenas, a antropóloga Braulina Baniwa criticou a forma como os saberes indígenas são tratados de modo “nichado” na academia. Segundo ela, há uma recusa sistemática em chamar esses conhecimentos de ciência, preferindo termos como “epistemologias” ou “cosmovisões”, assim como línguas indígenas são frequentemente reduzidas à categoria de “dialetos”. “Essas são violências contra nossa cultura, refletiu.

A antropóloga Braulina Baniwa

Ela ressaltou que a violência é a forma mais recorrente de relação da sociedade envolvente com os povos tradicionais, mas atinge de maneira desigual seus membros. Quando o garimpo ou a extração ilegal de madeira invadem terras indígenas, são as mulheres que sofrem as violações mais graves, ainda que seu sofrimento permaneça invisibilizado.

“As mulheres são as guardiãs da floresta, detentoras de uma ciência milenar de manejo, restauração e cuidado. Precisamos cuidar de quem cuida da Amazônia, humanizar essa relação”, afirmou, destacando o papel dos fundos comunitários indígenas no financiamento de atividades bioeconômicas lideradas por mulheres.

Choque de mundos e caminhos de diálogo

Para Ivo Macuxi, é justamente no choque entre mundos, culturas e ciências que se abre a possibilidade de construir um diálogo real. “Como podemos dialogar na proteção da Amazônia e dos povos que nela habitam há milênios?”, questionou.

Esse diálogo, no entanto, se dá sobre um palco marcado pela dor. Segundo o relatório Global Witness 2022, a cada dois dias um defensor ambiental é assassinado no mundo, sendo quase metade indígenas ou afrodescendentes. “Defendem o território não só física, mas espiritualmente, muitas vezes com a própria vida”, observou.

Ancestralidade mais antiga do que se supunha

Impulsionada por novas tecnologias, a arqueologia amazônica tem revelado uma constelação de assentamentos antigos muito maior do que se imaginava, conectados por redes de estradas. O Acadêmico Eduardo Góes Neves lembrou que essas descobertas confirmam os relatos do frei Gaspar de Carvajal, que em 1542 descreveu grandes cidades às margens do Amazonas.

Eduardo Góes Neves

Nesses sítios arqueológicos, a presença da terra preta, solo rico em carbono e nutrientes produzido por manejo indígena, evidencia uma sofiFOT 4sticada biotecnologia ancestral. Para Neves, trata-se de um exemplo emblemático da necessidade de articular saberes tradicionais e ciência moderna.Os dados genéticos indicam continuidade entre povos indígenas antigos e atuais, reforçando a necessidade de abandonar o termo “pré-história” e pensar o Brasil a partir de uma história antiga, profundamente enraizada na Amazônia e em seus povos originários.