23/01/2026

Em 2024, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) organizou a oitava edição do Science20 (S20), grupo de engajamento para a Ciência e Tecnologia do G20, fórum que reúne os principais países industrializados e emergentes do planeta. Constituído pelas academias de ciências dos países do bloco, o S20 tem por objetivo promover o diálogo entre a comunidade científica em temas críticos e prover recomendações, a partir de um documento de consenso, aos governos dos países do G20.

Reunião de Iniciação

Nos dias 11 e 12 de março, as academias se reuniram para abrir os trabalhos do Science20 em 2024. A reunião no Rio de Janeiro contou com representantes de todos os países do bloco, exceto Rússia, Coréia do Sul e Japão – os dois últimos enviaram vídeos. Desta vez, a reunião também contou com a participação da Academia Europeia. Instituições científicas internacionais e redes regionais de academias participaram como observadoras.

As discussões desse primeiro encontro giraram em torno das propostas feitas pela ABC, que, na condição de sede do S20, sugeriu cinco temáticas principais: Inteligência Artificial; Bioeconomia; Transição Energética; Saúde e Justiça Social.

Presidente da ABC fala aos presentes na reunião
  • Inteligência Artificial

Talvez a questão mais atual da fronteira tecnológica, a Inteligência Artificial (IA) foi intensamente debatida durante os dois dias. Países em desenvolvimento destacaram o investimento em infraestrutura e capacitação tecnológica como cruciais para que o impulso às IA não crie um abismo ainda maior entre ricos e pobres. Foram expressas preocupações sobre um novo tipo de “colonialismo digital”, onde IAs desenvolvidas por países ricos e alimentadas majoritariamente com dados do Norte Global criam novas formas de discriminação e dominação. Acesso aberto, dados abertos e mecanismos de transparência foram defendidos como facilitadores para um desenvolvimento mais igualitário dessas tecnologias.

Outro ponto recorrente foi o impacto das IAs no mercado de trabalho. Recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) declarou que 40% dos postos de trabalho atuais podem ser extintos devido à IA. Ao mesmo tempo, foi lembrado que novas tecnologias tendem a criar novos postos de trabalho antes inimagináveis. 

A Academia Chinesa de Ciências (CAS) defendeu um modelo de IA cauteloso e com o ser humano no centro. Já a Accademia Nazionale dei Lincei, da Itália, manifestou preocupações com IA na indústria bélica. Outros representantes europeus lembraram ainda dos impactos ambientais gerados por essa tecnologia. “A pegada de carbono da IA ainda é pequena, mas deve crescer exponencialmente. O estabelecimento de uma governança global em IA deve ser considerada”, sugeriu Francis André Wollman, vice-presidente da academia francesa.

  • Bioeconomia

A questão de maior convergência entre os países presentes, o desenvolvimento de uma bioeconomia, isto é, um modelo econômico mais sustentável e integrado aos sistemas biológicos da Terra, foi defendido por todos.

Esse processo, concordam os países, deve ser feito de forma a incluir as populações locais. Nesse sentido, algumas considerações foram feitas a respeito da capacidade e da velocidade com que cada país pode se adaptar sem sacrificar o bem-estar de seu povo. “Não existe uma receita única para cada país alcançar seu potencial bioeconômico, sumarizou Yunita Winarto, da Academia Indonésia de Ciências.

Em um ponto mais específico, Austrália, Alemanha e México sinalizaram que as práticas de aquicultura deveriam ter mais espaço nas discussões sobre bioeconomia.

Os representantes das academias nacionais reunidos no S20
  • Transição Energética

O imperativo das mudanças climáticas força o mundo a considerar seriamente a substituição dos combustíveis fósseis por energias renováveis. Entretanto, a dependência global do petróleo e do carvão faz com que este seja um ponto de muito debate. O Brasil está numa posição privilegiada no contexto global, já que metade de sua matriz energética é limpa, mas é uma exceção à regra.

A defesa majoritária foi por uma transição para emissões zero, com alguns países enfatizando a questão da justiça energética como um fator crucial. A representante da King AbdulAziz University, da Árabia Saudita, criticou a eliminação total dos combustíveis fósseis. Já a academia chinesa ressaltou que os impactos da transição devem ser considerados junto às especificidades de cada país. Em um exemplo prático, o representante da Academia Nacional de Ciencias Exactas Fisicas y Naturales, da Argentina, abordou o megacampo de gás de Vaca Muerta, onde o país vem elevando a extração de gás natural e estudando a prospecção de gases não convencionais, como o chamado hidrogênio azul, que também polui a atmosfera.

Outro ponto em que o Brasil desponta é no uso de biocombustíveis, como o etanol. O país defendeu essa alternativa como uma das ferramentas para a transição climática, no que foi seguido pela Austrália. O representante da academia francesa, por outro lado, criticou os biocombustíveis por competirem por espaço com a produção de alimentos. Em outro assunto, China, França, México e Reino Unido defenderam a energia nuclear como indispensável para a transição energética.

Representantes da Indonésia apresentam seus pontos de vista durante o S20
  • Saúde

Houve uma defesa unânime do conceito de Saúde Única, em que a saúde humana é compreendida em conjunto com a saúde do ambiente. A abordagem holística da saúde foi um dos focos principais da presidência indiana no S20, em 2023, e seus representantes destacaram essa abordagem em suas considerações. Uma diversidade de temas foi levantada, como o envelhecimento populacional, que a maioria dos países do G20 enfrenta, e o impacto das mudanças climáticas na saúde humana.

  • Justiça Social

Dentro do quinto tema proposto pelo Brasil, um dos desafios chave é o combate à pobreza. Os países foram unânimes na defesa das ciências sociais como essenciais para esses esforços e abordaram várias faces da desigualdade global, como a disparidade no acesso à energia, educação, internet, alimentos e água.

Em temas mais específicos, o representante da academia turca criticou a comunidade científica global por, em sua visão, “não estar abordando a tragédia humanitária em Gaza”. Já o representante da academia argentina manifestou grande preocupação com o que chamou de “total incerteza” sobre o financiamento da pesquisa e das universidades públicas no novo governo de seu país, e agradeceu à ABC pela manifestação em apoio à comunidade científica de seu país.

No auditório onde foi realizado o S20, os delegados ficavam situados na parte central, os convidados na segunda fileira e, ao fundo, os observadores

Cúpula do S20

Nos dias 1 e 2 de julho, a Cúpula do Science20 se reuniu no Rio de Janeiro. O encontro formulou as bases do comunicado oficial do grupo, endereçado a Cúpula do G20. 

  • Acesse o documento final:

Comunicado Oficial do S20: Ciência para a Transformação Mundial

  • Links para as matérias da ABC sobre o S20 2024:
  • Link para a playlist com todas as transmissões no YouTube: