23/01/2026

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) estão trabalhando juntos na criação do Centro de Memória Histórica da ABC José Murilo de Carvalho. O objetivo é disponibilizar de forma digital a documentação referente aos 100 primeiros anos da Academia, bem como armazenar o acervo físico nas dependências da ABC e do MAST.

O MAST já cuida dos acervos de instituições importantes da ciência brasileira, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Observatório Nacional (ON), e também guarda os acervos pessoais de grandes cientistas brasileiros, entre os quais estão vinte membros da ABC. São eles: 

Alexandre Girotto, Allyrio Hugueney de Mattos, Manuel Amoroso Costa, Bernard Gross, Diógenes Almeida Campos, Elisa Frota-Pessoa, Fernando de Souza Barros, George Bemsky, Henrique Morize, Hervásio de Carvalho, José Israel Vargas, Jayme Tiomno, João Christovão Cardoso, Joaquim da Costa Ribeiro, Jorge Manuel Sotomayor, Lélio Gama, Leopoldo Nachbin, Luiz Pinguelli Rosa, Maria Laura Leite Lopes e Mauricio Peixoto.

O prédio principal do MAST, localizado no bairro de São Cristóvão. O acervo físico da ABC será transferido para um prédio anexo.

O projeto

A assinatura do Protocolo de Intenções entre a ABC e o MAST para a execução do projeto ocorreu durante a Reunião Magna da ABC de 2024, e, em 7 de janeiro de 2026, as duas instituições assinaram um acordo de cooperação para os próximos três anos. O objetivo é a colaboração em atividades de pesquisa, extensão, divulgação e preservação de acervos científicos.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) financiou a primeira fase do projeto, coordenado pela Diretora da ABC Patrícia Bozza. Esta fase contou com a participação dos seguintes acadêmicos e pesquisadores do estado do Rio de Janeiro: Diógenes de Almeida Campos, Débora Fogel, Ildeu de Castro Moreira, Maria D. Vargas, Paulo Cruz Terra, Rodrigo Toniol e Thaiane Moreira de Oliveira. O trabalho buscou organizar e digitalizar uma parte do acervo da ABC, composto por documentos em diversos formatos produzidos desde 1916.

A primeira etapa envolveu atividades relacionadas à higienização, recuperação e identificação de itens que estavam na biblioteca da ABC, na rua Araújo Porto Alegre, no Centro do Rio de Janeiro. Nesse trabalho, historiadores e arquivologistas trabalharam com base nas diretrizes do Laboratório de Conservação e Restauração de Documentos em Papel (Lapel/MAST). Em seguida, os documentos foram digitalizados e estão sendo organizados em um inventário, que permitirá a pesquisadores fazerem buscas estruturadas entre as mais de 70 mil imagens captadas.

“É o maior acervo que teremos aqui no MAST”, frisou o chefe do Arquivo de História da Ciência do MAST, Everaldo Pereira Frade. “Quando o acervo entrar no ar, tenho certeza de que será bastante acessado, tornando-se uma janela para a história da ABC, de seus acadêmicos e da política científica brasileira”.

Everaldo Pereira Frade, chefe do Arquivo de História da Ciência do MAST

Organização do Acervo

Neste primeiro momento, o acervo estará dividido em três grandes grupos:

Atas e Estatutos – Compilação cronológica de todas as atas de reuniões e mudanças estatutárias encontradas no acervo da ABC. Essas atas registram, entre outras, informações sobre tomadas de decisão e atividades no âmbito da Academia; encontros entre representantes da ABC e do governo, além de instituições cientificas nacionais e estrangeiras; debates sobre o papel da ABC no contexto político brasileiro; disputas internas na comunidade científica e embates entre diferentes visões de mundo e desenvolvimento.

Dossiês de Acadêmicos – Esta seção contém diversos documentos relativos à admissão dos acadêmicos, informações gerais sobre os membros, bem como correspondências trocadas com a administração da Academia, a organização e participações em eventos e contribuições gerais ao trabalho da ABC. Alguns dossiês também contam com recortes de jornais e outras participações na mídia e no debate público.

Fotos e Reproduções – O acervo iconográfico é composto por fotografias que retratam a atividade da ABC e de seus acadêmicos, em eventos da própria Academia ou de outras instituições que gentilmente cederam reproduções. Entre os registros estão imagens de expedições científicas; visitas históricas de cientistas de destaque, como Albert Einstein e Marie Curie, e visitas de autoridades como os ex-presidentes Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Dilma Roussef.

Conteúdo e planos para o futuro

A historiadora Dayane Ponciano Lima, mestre em preservação de acervos de C&T pelo MAST, trabalhou no processo de identificação, organização e digitalização dos documentos. Ela destaca algumas das características que chamaram sua atenção.

“Nas primeiras décadas encontramos muitas discussões sobre a necessidade de uma academia nacional; sobre o que é desenvolvido pela ciência brasileira e o intercâmbio com outros países. Até a década de 1960 vemos um protagonismo da Academia na busca de financiamento de projetos e expedições, e isso talvez reflita um período em que os órgãos de fomento ainda estavam menos estruturados. Outra característica importante era o papel de intermediador que a ABC cumpria entre as comunidades científicas brasileira e internacional, como na busca por artigos ou colaborações. Hoje, com a internet, essa conexão ficou muito mais fácil, mas nem sempre foi assim”, relata a historiadora. “Percebemos também que a crítica à falta de incentivo e financiamento científico é perene”.

Participaram também desta etapa do projeto, sob a supervisão da equipe técnica do MAST, as técnicas Mariana Frade de Lima, Gabriely Santos da Silva Ferreira, Tainá de Lemos, Eliza Costa de Souza e Elisa Ribeiro, e a conservadora e restauradora de documentos Janaina Magalhães Angelo.

A acadêmica Maria D. Vargas explica que o material contemplado nesta primeira etapa corresponde a pouco mais de um terço do acervo total.

“Tínhamos um conhecimento limitado sobre o material quando começamos, e acabamos descobrindo muito mais do que havíamos antecipado. Por essa razão, já estamos elaborando uma segunda fase do projeto. Nesta etapa, temos a intenção de organizar e digitalizar mais de 240 mil páginas. Esse acervo inclui toda a correspondência emitida e recebida desde 1929, uma documentação valiosa relacionada a convênios, intercâmbios acadêmicos e parcerias com instituições científicas, documentos sobre prêmios e honrarias que a Academia já outorgou, além daqueles que dizem respeito às negociações para que a ABC tivesse uma sede condizente com sua relevância. Também estamos planejando digitalizar e tornar acessíveis todos os artigos dos Anais da ABC publicados entre 1929 e 1999, bem como todas as publicações da Academia ao longo desse período. Faremos também a transcrição dos arquivos preciosos de áudio e vídeo que já foram masterizados na primeira etapa do projeto, para disponibilização virtual em PDF”, antecipa a professora.

Os Acadêmicos Diógenes Almeida Campos e Maria Domingues Vargas durante os trabalhos no acervo da ABC

A equipe envolvida no projeto memória da ABC 

Potencial de pesquisa

Como parte de seu compromisso com a pesquisa brasileira, a ABC acredita que o acervo será de valor inestimável para o campo de estudo em História da Ciência no Brasil. Uma vez no ar, os pesquisadores só precisarão se cadastrar na base de dados do MAST e poderão acessar todos os documentos do acervo.

Dois exemplos ilustram bem o potencial de pesquisa do acervo. O historiador Paulo Cruz Terra, membro afiliado da ABC 2023-2027 e especialista no campo da história do trabalho, está com um projeto em andamento que inclui os alunos de iniciação tecnológica (PIBITI-UFF) Clara Reis e Leonardo Martins, cujas bolsas são pagas pela ABC através de um acordo com a Universidade Federal Fluminense (UFF).

A equipe mergulhou nos documentos financeiros da ABC e selecionou aqueles com valor histórico para digitalização. Entre as inúmeras notas fiscais e justificativas de compras, os jovens encontraram documentos e cadernos que jogam luz sobre como as ideias em circulação no meio científico evoluíram ao longo dos anos.

“Os documentos encontrados nos arquivos da ABC abrem muitas possibilidade de pesquisa para o campo da história da ciência no Brasil. Nos documentos financeiros, nas categorias ‘razão’ e ‘prestação de contas’, por exemplo, podemos utilizar metodologias do campo da história econômica a fim de enumerar as diversas atividades realizadas, traçando, ao longo dos anos, a origem dos financiamentos públicos recebidos desde a década de 60. Outros documentos recompõem o cotidiano dos funcionários da ABC, como constam nas ‘folhas de pagamento’ e nas ‘folhas de ponto’, e podem nos ajudar a reconstituir uma história social do trabalho da ciência no Brasil através de outros sujeitos para além dos cientistas”, explica Leonardo.

O mérito do trabalho rendeu a Clara Reis a segunda colocação na categoria “Ciências Humanas, Sociais, Linguísticas, Letras e Artes” do Prêmio de Iniciação à Inovação da Agenda Acadêmica UFF-2025. “Foi um trabalho de extrema importância para minha formação em História. No início foi bem difícil de conciliar com a minha vida acadêmica, mas acabei acostumando e tomando gosto pelo estágio e pelas pessoas”, contou Clara.

Outro exemplo é o da pesquisadora Thammy Guimarães Costa Borges, doutoranda no projeto Global Academies, do European Research Council (ECR), que investiga o papel das sociedades científicas na globalização do conhecimento no século 20. Sua pesquisa aborda as relações de gênero e política dentro da Academia Brasileira de Ciências e as diversas maneiras pelas quais as mulheres reivindicam seu espaço nos ambientes científicos.

“A intenção do meu trabalho, como historiadora cultural, é entender os mecanismos por trás das barreiras à participação feminina na ciência brasileira e mundial. Isso significa ir além das estatísticas, entender que os processos de indicação, eleição, seleção e participação dentro da Academia não são neutros, mas são fruto de práticas socioculturais”, explica. “Além disso, o século 20 foi um período de intensas convulsões políticas no Brasil, então investigo estratégias usadas pela ABC para manter sua autonomia durante o Estado Novo e a Ditadura Militar”.

“Para compreender essas dinâmicas, a consulta ao acervo está sendo indispensável. Cheguei a ele através do MAST, que me comunicou sobre a parceria. O Everaldo me apresentou à doutora Maria Vargas que me recebeu com entusiasmo. Posteriormente, fui recebida também pela presidente Helena Nader. Cheguei no momento ideal, pois sem a catalogação do acervo a minha pesquisa seria impossível. A existência de um arquivo bem preservado e organizado economiza tempo do historiador e é importante para tornar a história da ciência brasileira acessível”, complementa.

Leonardo Martins, Clara Reis e Dayane Ponciano na biblioteca da ABC