23/01/2026

Texto de Ildeu Moreira, físico e historiador da ciência e membro titular da ABC

O eminente físico Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro entre os dias 4 e 12 de maio de 1925. Ele proferiu duas palestras sobre a Teoria da Relatividade — uma no Clube de Engenharia e outra na Escola Politécnica —, visitou instituições científicas como o Observatório Nacional, o Instituto Oswaldo Cruz, o Museu Nacional e o Jardim Botânico. Einstein também explorou pontos turísticos da cidade, encantou-se com a natureza local, passeou pelas ruas, reuniu-se com autoridades e participou de eventos organizados pelas comunidades judaica e alemã.

Sua presença na Academia Brasileira de Ciências (ABC) foi o compromisso científico mais importante da visita ao Rio. A sessão solene em sua homenagem ocorreu no dia 7 de maio e reuniu cerca de 90 pessoas, entre acadêmicos, personalidades e representantes de diversas instituições, incluindo dez mulheres. O evento aconteceu na então sede da ABC: o Pavilhão Tchecoslovaco, na Avenida das Nações, que viria a ser demolido em 1928. Juliano Moreira, então presidente em exercício da ABC, abriu a sessão, discorrendo sobre a influência da relatividade em diversas áreas da ciência. Em seguida, entregou a Einstein o diploma de Membro Correspondente da ABC, título aprovado por aclamação.

Francisco Lafayette, membro da ABC, fez uma apresentação sobre a obra científica de Einstein, destacando suas pesquisas sobre o movimento browniano, o efeito fotoelétrico e as teorias da relatividade. Em seguida, Mário Ramos anunciou a criação do Prêmio Albert Einstein, que seria concedido anualmente ao melhor trabalho apresentado à Academia.

Einstein proferiu então uma conferência breve, mas historicamente relevante, sobre o estado da teoria da luz. Em vez de um discurso formal, ele apresentou à ABC uma questão científica crucial da época: o problema da realidade do quantum de luz (o fóton).

O manuscrito, de três páginas, foi redigido em papel do Hotel Glória, onde Einstein se hospedava. Datado de 7 de maio – mesmo dia da conferência -, o documento foi escrito em alemão, embora Einstein tenha se expressado em francês durante o evento. O texto foi entregue à ABC para tradução e publicação em sua revista, o que veio a ocorrer em 1926.

O texto desta comunicação foi traduzido pelo Acadêmico Roberto Marinho de Azevedo e publicado no volume inaugural da Revista da Academia Brasileira de Ciências, em 1926. Trata-se do único artigo científico de Einstein sobre sua controvérsia com Niels Bohr acerca da natureza dos quanta de luz. O manuscrito original ficou na posse de Getúlio das Neves e, posteriormente, foi guardado por seus familiares.

Em 7 de maio, durante sua visita à Academia Brasileira de Ciências – sediada no Pavilhão Tchecoslovaco, que também abrigava a Rádio Sociedade (primeira emissora radiofônica do Brasil, fundada pela ABC em 1923) -, Einstein teve a oportunidade de ouvir obras da música brasileira. A orquestra da Rádio Sociedade executou: ‘Visões’, de Francisco Braga; ‘Batuque’, de Alberto Nepomuceno; ‘Magnífico’, tango de Ernesto Nazareth; e ‘Mulatinho’, choro de Belmacio Godinho. Foi este último, conforme relatou o jornal A Pátria, que “mais vivamente impressionou ao grande sábio, provocando-lhe palmas e exclamações de aplausos”.

Convidado por Roquette-Pinto a dirigir algumas palavras aos brasileiros por meio do microfone da Rádio Sociedade, Einstein aceitou e falou em alemão, tendo sua mensagem sido traduzida imediatamente por Mario Saraiva. “Após minha visita a esta Rádio Sociedade, não posso deixar de mais uma vez admirar os esplêndidos resultados a que chegou a ciência aliada à técnica, permitindo aos que vivem isolados os melhores frutos da civilização. É verdade que o livro também poderia fazer e o tem feito; mas não com a simplicidade e segurança de uma exposição cuidada e ouvida de viva voz. O livro tem que ser escolhido pelo leitor, o que por vezes traz dificuldades. Na cultura levada pela radiotelefonia, desde que sejam pessoas capacitadas as que se encarreguem das divulgações, quem ouve recebe além de uma escolha judiciosa, opiniões pessoais e comentários que aplainam os caminhos e facilitam a compreensão: esta é a grande obra da Rádio Sociedade” [Einstein na Rádio Sociedade, 7 de maio de 1925].

Durante suas visitas à Escola Politécnica e ao Museu Nacional, Einstein ouviu muitos elogios ao trabalho de Cândido Mariano da Silva Rondon, membro da ABC. No Museu Nacional, teve a oportunidade de assistir a registros cinematográficos das expedições de Rondon – provavelmente por iniciativa de Roquette-Pinto, que havia participado de uma expedição com o próprio Rondon. A impressão causada por esses relatos foi tão profunda que, durante sua viagem de retorno à Alemanha, Einstein decidiu indicar Rondon para o Prêmio Nobel da Paz.

PARA SABER MAIS

1. Moreira, I. C. e Videira, A. A. P. (Org.). Einstein e o Brasil. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1995. 

2. Moreira, I. C. and Tolmasquim, A. T. Einstein in Brazil: The communication to the Brazilian Academy of Sciences on the constitution of light. In: H. Kragh, G. Vanpaemel, P. Marage. (Org.). History of Modern Physics. Turnhout: Brepols Publishers, v. XIV, p. 229-242, 2002. 

3. Moreira, I. C. e Tolmasquim, A. T. Um manuscrito original de Einstein encontrado no Brasil. Ciência Hoje, v. 22, n.124, p. 22-29, 1996. 

4. Tolmasquim, A. T. Einstein. O Viajante da Relatividade na América do Sul. Rio de Janeiro: Vieira e Lent, 2003. 

5. Carvalho, J. M e Moreira, I. C. (Org.). Ciência no Brasil – Cem Anos da Academia Brasileira de Ciências. Rio de Janeiro: ABC, 2017.