23/01/2026

Há mais de cem anos, em 20 de abril de 1923, foi criada por um grupo de cientistas e professores a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (RS). Pioneira por aqui, não nasceu por iniciativa estatal nem como empresa privada, mas como entidade civil, uma sociedade mantida por seus sócios e sustentada pelo trabalho voluntário de muitos. Tratava-se de uma iniciativa inovadora e de grande impacto no Brasil da época.

Diretores e sócios da Rádio Sociedade – (Da esquerda para a direita, sentados) Carlos Guinle, enrique Morize e Luiz Betim Paes Leme; (em pé) Dulcídio Pereira, Francisco Lafayette, Roquette-Pinto, Demócrito Seabra, Mario de Souza, Costa Lima e Nestor Serra

Seu Estatuto definia claramente o propósito da emissora:

“Fundada com fins exclusivamente científicos, técnicos, artísticos e de pura educação popular, não se envolverá jamais em nenhum assunto de natureza profissional, industrial, comercial ou político.”

Em 1936, a Rádio Sociedade foi doada ao “povo brasileiro”, passando à administração do Estado, por meio do governo federal, transformando-se na Rádio MEC, que construiu uma história centenária de contribuições à cultura e à educação brasileiras.

  • Edgar Roquette-Pinto e a Academia Brasileira de Ciências

O grande motor da criação da Rádio Sociedade foi Edgar Roquette-Pinto (1884–1954), médico, antropólogo, educador e entusiasta das comunicações no Brasil. Em 1923, Roquette-Pinto mobilizou seus colegas da Academia Brasileira de Ciências (ABC), criada sete anos antes, da qual era secretário-geral.

Edgard Roquette-Pinto nos anos 50

Contou especialmente com o apoio de Henrique Morize, então presidente da ABC, que também assumiu a presidência da Rádio Sociedade. O financiamento inicial para aquisição dos equipamentos veio de empresários como Demócrito Seabra (tesoureiro da RS) e Carlos Guinle. Com a subscrição de um número expressivo de sócios e o patrocínio de poucas empresas, foi possível manter a rádio por 13 anos, preservando seu caráter educativo e não comercial.

  • A luta pela radiotelefonia e os desafios técnicos

Entre 1924 e 1928, a Rádio Sociedade e a ABC ocuparam o Pavilhão Tchecoslovaco, construído para o Centenário da Independência, na Avenida das Nações. Após a demolição do prédio, a Rádio Sociedade transferiu-se para a Rua da Carioca, enquanto a ABC permaneceu sem sede fixa por muitos anos.

Pavilhão Tchecoslovaco

Nos primeiros anos, a ABC e a Rádio Sociedade protagonizaram uma luta bem-sucedida junto ao governo federal pela liberação do uso da “telefonia sem fio” (TSF) ou radiotelefonia, como se chamava então a transmissão radiofônica. Contribuíram para pôr fim à exigência anacrônica de licença para a instalação de receptores.

As dificuldades técnicas eram muitas. A tecnologia era de ponta — a primeira emissora de rádio do mundo surgira apenas três anos antes, nos Estados Unidos. Era preciso aprender fazendo, inventando soluções a cada passo, tanto para os aspectos técnicos quanto para a construção dos conteúdos. Durante muitos anos, a Rádio Sociedade foi a emissora mais potente da América do Sul.

  • Ciência no ar: aulas, palestras e divulgação do conhecimento

Roquette-Pinto era o apresentador do noticiário da rádio. Lia e comentava as notícias de viva voz, após uma leitura minuciosa dos jornais, nos quais assinalava a lápis os pontos principais.

Aulas e palestras sobre ciência e cultura passaram a ser transmitidas regularmente, ministradas por cientistas e professores de instituições como o Museu Nacional, a Escola Politécnica e o Instituto de Manguinhos. Entre eles, Mário Saraiva e Custódio José da Silva (Química), Francisco Venancio Filho (Física), Mello Leitão (História Natural), Alberto Sampaio (Botânica), Sebastião Barroso (Higiene) e Ferdinando Laboriau, João Ribeiro, Mauricio Joppert e Othon Leonardos (Geociências). 

Além disso, havia aulas de literatura, inglês e história. Não foram encontrados registros sonoros desses programas, mas é instigante imaginar como os ouvintes, munidos de receptores galena (rádios primitivos ou de cristal), com frequentes problemas de sintonia e qualidade sonora, conseguiam acompanhar aulas de física, química ou geologia.

  • Música, cultura e produção editorial

A Rádio Sociedade foi também pioneira na divulgação da música clássica no Brasil, transmitindo concertos e óperas, muitas vezes na íntegra. Com o tempo, e por insistência dos ouvintes, a música popular passou a integrar fortemente a programação.Diversos artistas se apresentaram ou despontaram nos microfones da RS ou, posteriormente, da Rádio MEC, como Catulo da Paixão Cearense, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Edino Krieger, entre muitos outros.

Capa da revista Electron, N.3, Ano 1

A Rádio Sociedade funcionava como um verdadeiro complexo cultural, com biblioteca, sala de leitura, laboratório técnico, auditório, orquestra, estúdios e produção editorial. Foram criadas duas revistas: a Rádio (1923), voltada à divulgação científica e aos temas ligados à radiodifusão; e a Electron (1926), publicação bimensal de rádio cultura, distribuída aos sócios, com tiragem de 3.000 exemplares, trazendo a programação completa da emissora.

  • Einstein, Marie Curie e a Rádio Sociedade

Em 1925, Albert Einstein visitou a Rádio Sociedade, após realizar uma comunicação na ABC sobre os quanta de luz. Sua fala foi transmitida ao vivo, em alemão, com tradução imediata para o português:

“Após minha visita a esta Rádio Sociedade, não posso deixar de mais uma vez admirar os esplêndidos resultados a que a ciência chegou, aliada à técnica…”

 Albert Einstein em visita à ABC e à Rádio Sociedade (1925), então situadas no Pavilhão Tchecoslovaco

Um jornal da época registrou que a orquestra da Rádio Sociedade executou para Einstein obras de Francisco Braga, Alberto Nepomuceno, Ernesto Nazareth e Belmácio Godinho, sendo o choro Mulatinho particularmente aplaudido pelo cientista.

Em 1926, foi a vez de Marie Curie, cujas aulas sobre radioatividade na Escola Politécnica foram transmitidas, em francês, pela Rádio Sociedade.

  • Educação infantil no rádio: o “Quarto de Hora Infantil”

Em 1924, o educador João Köpke propôs a Roquette-Pinto um programa dedicado às crianças: o “Quarto de Hora Infantil”. Iniciado com o próprio Köpke, como o “Vovô”, o programa teve enorme sucesso.

Beatriz Roquette-Pinto, a Tia Beatriz, cercada de crianças no estúdio da difusora (Revista Carioca, n. 25, 11/04/1936)

Após sua morte, foi conduzido pela “Tia Joanna” (Heloisa Alberto Torres) e, a partir de 1930, pela “Tia Beatriz”, Beatriz Roquette-Pinto, filha do fundador, então com 19 anos. O programa respondia também a perguntas enviadas pelas crianças, muitas delas de caráter científico.

  • A doação ao Estado e o nascimento da Rádio MEC

A expansão das rádios comerciais e as exigências técnicas da nova legislação dos anos 1930 tornaram inviável a manutenção da Rádio Sociedade em sua estrutura não comercial. Em 1936, Roquette-Pinto articulou cuidadosamente a incorporação da RS ao governo federal, com mediação do ministro Gustavo Capanema e de Carlos Drummond de Andrade, seu chefe de gabinete.

Getúlio Vargas garantiu que os objetivos originais da emissora seriam preservados. A Rádio Sociedade foi então doada ao Estado, vinculada ao Ministério da Educação e Saúde, passando a chamar-se Rádio Ministério da Educação, hoje Rádio MEC, que, apesar de momentos difíceis recentes, precisa e deve sobreviver.

  • “A radiotelefonia será a maior escola do porvir”

Encerramos esta história — parte fundamental da história da ciência, da educação e da cultura no Brasil — com palavras do próprio Roquette-Pinto:

“A radiotelefonia será a maior escola do porvir.”
“Rádio é o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode ir à escola…”
“Que meio para transformar um homem em poucos minutos, se o empregarem com boa vontade, com alma e coração!”A Rádio Sociedade foi o produto real de um sonho altruísta de cientistas, voltado à educação, à cultura e à ciência brasileiras. Para seu principal mentor, sonhar era essencial — e agir, indispensável. Assim nasceu a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, depois Rádio MEC.

Confira um raro depoimento de Roquette-Pinto sobre a criação da Rádio Sociedade:

*Pesquisa e texto original do Acadêmico Ildeu de Castro Moreira

MATÉRIAS SOBRE ROQUETE PINTO E O RÁDIO NO BRASIL